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O risco de intoxicação no trabalho artístico

Os conhecimentos básicos de Toxicologia, ciência que estuda os venenos e suas consequências no organismo, devem ser conhecidos e aplicados por todos no nosso dia-a-dia. Seja na limpeza da casa - com o uso de produtos sanitários; no salão de beleza, com o uso do formol e outras substâncias; ou na aplicação de inseticida no quarto, horas antes de dormir. Nestas e em outras situações está presente o risco de envenenamento.

O pintor José Rosário Souza, em seu blog, além de mostrar belas pinturas, postou um texto interessante que trata dos riscos de intoxicação na manipulação de produtos utilizados em trabalhos artísticos. O artista aprendeu sobre estes riscos da forma mais dolorosa, vivenciando-os.

Em 2003, uma série de transtornos com garganta e sistema respiratório o fez rever comportamentos referentes ao processo de execução de seu trabalho, a pintura a óleo. A recorrência destes problemas se dava pelo uso constante de substâncias como a terebintina, secante de cobalto e querosene ou thinner para limpeza de pincéis. 

Resolveu logo estes problemas de saúde com o afastamento da fonte de exposição por 4 meses. Como ele próprio relata: "até então, ignorava os efeitos danosos desses produtos sobre o organismo e nunca havia pensado na possibilidade de ser intoxicado por eles. Creio que esse seja o raciocínio errôneo de muitos artistas, mundo afora."

Vejamos, então, o seu texto:

“... fazer arte requer alguns cuidados na sua execução, tanto para aqueles que a praticam ocasionalmente, e principalmente por aqueles que a fazem em sua rotina diária. É que grande parte dos materiais utilizados para a confecção de qualquer obra de arte esconde grandes perigos, devido ao seu alto grau de toxicidade.

Uma grande parte dos pigmentos utilizados na fabricação das cores tem em sua composição elementos agressivos à saúde humana, como os metais pesados; além de diluentes ou solventes para se tornarem estáveis e manipuláveis. Dependendo da técnica, esses materiais podem ser manipulados sob controle e não proporcionam perigo. Mas, na busca por uma técnica mais apurada e por efeitos além dos tradicionais, tem-se utilizado exageradamente métodos que põe em risco a saúde de quem os manipula. Vê-se cada vez mais, o uso abusivo de veladuras e transparências conseguidas graças ao uso de resinas, vernizes e toda sorte de diluentes e solventes. São esses últimos, os maiores vilões nessa história.

A presente matéria traz um alerta, não no sentido de amedrontar e provocar pânico. Os materiais estão aí para serem utilizados e são os nossos maiores aliados para a produção daquilo que idealizamos e trazemos para a realidade. O que pretendo é sensibilizar que todas as coisas nos oferecem riscos. Como disse Saint Exupéry em “O Pequeno Príncipe”: Até uma rosa pode nos ferir, tudo depende da maneira como dela nos aproximamos. Assim também, qualquer material utilizado para fazer arte pode se tornar o nosso maior aliado ou nosso maior inimigo, tudo depende da maneira como os utilizamos.

...

A concepção de um ateliê todo em desordem, com uma série de tintas e produtos espalhados por todos os lados, e o artista tão sujo e desorganizado quanto ele, pode parecer meio romântica e aludir à sensação que o artista e sua arte estão completamente integrados. É uma cena bonita na ficção. Na prática, esse mau hábito pode trazer consequências sérias para a saúde do artista. As biografias de vários artistas nos relatam o mal que tais produtos já proporcionaram. Um dos exemplos mais famosos entre nós é o de Portinari, que faleceu cedo, em decorrência da exposição errônea e prolongada a tais produtos.

Em grande parte das vezes, tais transtornos a saúde são gerados principalmente pela condição do ambiente onde se trabalha. Um ateliê adequado para o trabalho e que reduza quase que completamente os riscos de intoxicação, deve ter uma boa ventilação e nenhuma concentração de odores. Ambientes fechados e que não permitam boa troca de ar são ideais para o surgimento e agravamento de várias doenças e transtornos a saúde. Vale ressaltar também que algumas pessoas são mais tolerantes que outras, mas isso não impede que estejam sendo intoxicadas. Os danos virão, é só uma questão de tempo.

As substâncias tóxicas utilizadas no processo de diversos trabalhos artísticos podem penetrar no corpo através de várias maneiras: por ingestão, por respiração/aspiração e também podem ser absorvidos pela pele. De acordo com a natureza de cada pessoa, os danos provocados por essas substâncias podem ser agudos ou crônicos, também podem ser sanados tão logo sejam remediados ao serem descobertos, ou se tornarem irreversíveis. A exposição pode causar danos ao cérebro e provocar doenças mentais, assim como outros males e moléstias físicas e levar até mesmo à morte. Segundo Ralph Mayer, no livro O Manual do Artista, as cores artísticas mais tóxicas podem causar doenças agudas ou crônicas (inclusive o câncer), provenientes de carcinógenos conhecidos ou desconhecidos.

Fique atento se, ao utilizar seu material de trabalho, começar a sentir alguns sinais frequentes, tais como irritação e vermelhidão dos olhos, ressecamento das fossas nasais, dores de cabeça sem motivo aparente, coceiras e micoses principalmente nas mãos, frequentes irritações do sistema respiratório (amígdalas, laringe e faringe) e em casos mais sérios, náusea e mal-estar. A intoxicação pode ocorrer de modo abrupto ou lento, sem você perceber. Todas as duas variantes trazem vários problemas.

Mediante tais alertas, não custa tomar algumas precauções para que o fazer artístico, uma atividade tão especial na vida de muitas pessoas, não torne um problema. Citarei algumas providências que são de minha própria experiência e que se mostraram muito úteis:

. Não pinte em locais fechados ou com pouca ventilação, em nenhuma circunstância. Mesmo os produtos menos tóxicos tem seu potencial de toxicidade aumentado nessas condições.

. Não use panos ou trapos para a limpeza de pincéis, quando estiver pintando. Eles retém cheiro e partículas de tintas, que acabarão sendo inalados ou entrarão em contato com sua pele. Use papel toalha ou guardanapos de papel e jogue-os fora sempre que sujarem o suficiente.

. Mantenha a lixeira fora do ateliê. Ela retém cheiro e continuará exalando os produtos voláteis que você havia descartado.

. Caso sinta alergia nas mãos, pelo contato com algum produto, use luvas descartáveis.

. Ao manusear diluentes e solventes com maior risco de toxicidade, utilize uma máscara e lave bem as mãos ao término de cada atividade.

. No uso de tinta à óleo, evite solventes ou diluentes. Se a tinta se apresentar mais densa, use pequenas gotas de óleo de linhaça para quebrar um pouco sua consistência. Tente se adaptar a uma pintura mais simplificada, com menos efeitos mirabolantes e que dispense o uso de vernizes e resinas, pois esses sempre necessitam de diluentes e solventes para serem aplicados.

. Também para a limpeza dos pincéis usados com óleo, utilize apenas detergente neutro em água corrente. Retire o excesso em pentes próprios para limpeza.

. Hidrata-se sempre que possível. O organismo precisa de líquidos para eliminar impurezas e manter o bom funcionamento dos rins.

Essas são apenas algumas sugestões. Como disse anteriormente, cada caso tem suas particularidades e conveniências. Observando melhor suas reações diante de alguns produtos e certas atividades, você se conhecerá melhor e saberá como se precaver de certos transtornos.”

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