Pular para o conteúdo principal

Risco de intoxicações foi destaque durante seminário do Ciave

“Todas as substâncias são venenosas. A dose correta diferencia o veneno do remédio”. A citação do médico e alquimista Paracelso, feita por volta do século XVI, foi usada na manhã de hoje pelo médico infectologista Gustavo Mustafá Tanajura, durante palestra sobre o tema “Introdução à toxicologia”, dentro da programação do 3º Seminário de Toxicologia. O evento, realizado durante todo o dia, no Fiesta Convention Center, marcou o encerramento das comemorações dos 35 anos de funcionamento do Centro de Informações Antiveneno (Ciave), da Secretaria da Saúde do Estado.

Durante a instalação do simpósio, o médico toxicologista Daniel Rebouças, diretor do Ciave, falou sobre a importância do centro, fundado no dia 30 de agosto de 1980, e que ao longo desses anos vem “cumprindo importante papel na assistência e também na formação de profissionais de saúde”.

O diretor do Ciave lembrou ainda que o aniversário do centro coincide com o Dia Estadual de Conscientização para a Prevenção da Intoxicação por Substâncias Químicas, instituído através da lei 9.205, de agosto de 2004, e que, em função disso, foi programada a 1ª Semana Estadual de Prevenção às Intoxicações, que englobou diversas atividades, com a participação de profissionais e estagiários do serviço, além de convidados.

Risco dos medicamentos

Com o objetivo de fortalecer o debate em torno do panorama nacional dos envenenamentos, com ênfase para o estado da Bahia, o 3º Seminário de Toxicologia teve a participação, como palestrantes convidados, da médica Patrícia Ciruffo, do Serviço de Toxicologia de Belo Horizonte, e do médico Francisco de Siqueira França, do Núcleo de Medicina Tropical e Infectologia de Santarém, que destacaram a importância do Ciave como referência na aérea de toxicologia. De acordo com Siqueira França, “o trabalho do Ciave nesses 35 anos é motivo de orgulho”.

Durante palestra sobre “Introdução à toxicologia”, dando início à programação científica do seminário, o médico Gustavo Mustafá recordou que Hipócrates escreveu um livro considerado “verdadeiro tratado sobre os efeitos do meio ambiente na saúde das pessoas”, enquanto Dioscores, antes de Cristo, já havia classificado substâncias tóxicas. “No século XX, compostos químicos tóxicos foram usados para fins bélicos, e no século XXI, veio o controle regulatório dos alimentos, meio ambiente, agrotóxicos, domissatários, fármacos e outras substâncias”, contou Mustafá.

Após definir a toxicologia como a interação entre indivíduo, um agente químico e o meio ambiente, o médico falou sobre os grupos de risco para intoxicações, e revelou que a maioria dos acidentes acontecem no meio ambiente doméstico, envolvendo crianças e idosos. Nos últimos anos, segundo o palestrante, registros do Ciave apontam que o maior número de intoxicações foram provocadas por medicamentos, seguidas de agrotóxicos e acidentes por animais peçonhentos, principalmente serpentes.

A maioria das intoxicações está relacionada a medicamentos porque, a população brasileira tem o pensamento voltado excessivamente para os remédios, e os médicos também prescrevem em demasia, pontuou Mustafá, apontando como solução para o problema o uso racional de medicamentos. Ainda conforme o especialista, 50% dos medicamentos são prescritos ou usados de forma inadequada e esse uso inadequado é responsável por grande número de mortes. “Não existe medicamento seguro, existe modo seguro de usar o medicamento”, concluiu.
Referência
Segundo serviço de toxicologia do país a entrar em funcionamento, o Ciave é responsável pela normalização, regulação e controle de atividades ligadas à toxicologia; orientação toxicológica em geral para prevenção, diagnóstico e tratamento de intoxicações exógenas; atendimento médico de urgência e acompanhamento de pacientes intoxicados; realização de análises toxicológicas de urgência em pacientes atendidos na rede pública de saúde e monitoramento terapêutico de fármacos; manutenção do laboratório de animais peçonhentos e controle e manutenção de bancos de antídotos, entre outras atividades relacionadas à toxicologia.

O serviço conta ainda com o Núcleo de Estudos e Prevenção do Suicídio (NEPS),  criado em 2007, que além do acompanhamento psicológico, disponibiliza atendimento psiquiátrico ambulatorial, terapia ocupacional e reuniões informativas para familiares de pacientes que tentaram suicídio. A coordenadora do Núcleo, Soraya Carvalho, conta que o serviço é voltado ao atendimento de pacientes com depressão grave e risco de suicídio. “Atualmente, somos referência na Bahia e também estamos exportando o modelo para outros centros no Brasil”, revela a psicóloga.

Destaque também, no Ciave, para o jardim de plantas venenosas, fundamental para identificar as espécies de plantas que causam envenenamento ou algum tipo de intoxicação, garantindo o tratamento adequado às vítimas.

A programação da 1ª Semana Estadual de Prevenção às Intoxicações, que marcou os 35 anos do centro, foi iniciada nesta segunda-feira (24), no auditório do Ciave, com um simpósio interno de integração. No dia seguinte (25), servidores do centro se engajaram na campanha de doação voluntária de sangue e medula óssea e foram ao Hemoba, para uma doação coletiva

No dia 26, quarta-feira, de 8 às 17 horas, no saguão do Hospital Geral Roberto Santos, houve uma exposição sobre as atividades e a trajetória do centro, com distribuição de material educativo.
Para mais fotos, acesse o Flickr da Sesab
A.G. Mtb 696/Ba
Ciave/simpósio

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Intoxicação por pó-de-mico

Continua um mistério a causa do surto que ocorreu no mês de março no município de Apuarema, interior da Bahia. A história teve início no dia 21/03, na Escola Municipal Aurino Nery, quando diversos alunos da oitava série manifestaram sinais de prurido na sala de aula causando uma pequena aglomeração naquele estabelecimento de ensino. Cerca de oito alunos manifestaram esses sinais na sala, saíram para o pavilhão e entraram em contato com turmas vizinhas  que acabaram manifestando os sintomas de prurido e urticária. O evento ocorreu se repetiu alguns dias depois. Ao todo foram mais de 40 crianças acometidas. Algumas apresentaram cefaléia. O colégio foi fechado temporariamente pela secretaria municipal de educação. As aulas foram retomadas no dia primeiro de abril sem indícios de um novo incidente. Suspeita-se que alguém tenha introduzido no local alguma substância. Pensou-se na possibilidade de ter sido “pó-de-mico”. O “pó-de-mico” consiste em tricomas (semelhante a pêlos) que recobrem as…

Ciave alerta para aumento do risco de acidente escorpiônico e fake news

Na Bahia, em 2018, ocorreram 24.714 casos de acidente por animais peçonhentos, de acordo com o Sistema de Informação de Agravos de Notificação – Sinan, com 188 ocorrências em Salvador. Entre eles, o acidente escorpiônico predominou com 18.985 (76,8%), dos quais 47 se deram na capital.
No ano passado, o Centro de Informações Antiveneno – Ciave registrou o atendimento de 2.425 casos de escorpionismo. Já nessa primeira quinzena de janeiro, o Centro registrou 127 casos, 10% a mais que o mesmo período em 2018, com uma média de 9 ocorrências por dia.
Segundo Jucelino Nery, diretor do Ciave e coordenador estadual do Programa de Controle de Acidentes por Animais Peçonhentos, os acidentes escorpiônicos tiveram em 2018 um aumento de 22%, em relação ao ano anterior. Além do clima, o crescimento desordenado das áreas urbanas, a falta de saneamento básico, o desmatamento e o acúmulo de lixo, entulhos e restos de material de construção fazem com que os escorpiões procurem abrigo e alimento (insetos…

Águas vivas começam a aparecer em maior quantidade em Itajaí

Quem aproveitou a manhã de quarta-feira para caminhar pela areia da Praia da Atalaia em Itajaí teve que desviar de águas vivas. Os organismos marinhos surgiram aos montes e deixaram a areia coberta. Apesar de causarem preocupação aos banhistas, as encontradas ali não provocam as populares queimaduras, que na verdade são um tipo de envenenamento. De acordo com o Corpo de Bombeiros a espécie presente na Atalaia é a racostoma atlanticun, que não queima. Isso, porém, não significa que os banhistas devem ter contato com o animal marinho. Isso porque é difícil identificar se uma água viva é nociva ou não. Coordenador de praia da corporação e oceanógrafo, o soldado Daniel Ribeiro explica que só especialistas conseguem identificar quais espécies causam queimaduras e que algumas se assemelham muito as racostoma, mas queimam. Ribeiro explica que o surgimento das águas vivas perto da costa ocorre em função de uma série de fatores naturais. Um deles são as correntes marinhas que transportam os orga…